A Justiça de São Paulo decretou a perda, em favor do Estado, de mais um imóvel apontado como peça da estrutura do PCC na antiga Cracolândia. Desta vez, o alvo é o Hotel Impéria, na Rua dos Protestantes, na Santa Ifigênia. A sentença, assinada na quarta-feira (21) pela 1ª Vara Estadual de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens, Direitos e Valores, foi divulgada nesta sexta (23) pelo Ministério Público de São Paulo e detalhada pelo Estadão.
Além do perdimento do prédio, a decisão condenou quatro pessoas por organização criminosa e associação para o tráfico de drogas, entre elas os dois donos do hotel. Três réus receberam pena de 9 anos e o quarto, de 4 anos e 6 meses. Cada um também deverá pagar R$ 1 milhão por danos morais coletivos, pelo uso público e notório de estruturas hoteleiras para fins criminosos. Segundo o MP, o quarto condenado trabalhava como contador de vários estabelecimentos da região e teve reconhecida sua participação na facção. As defesas não foram localizadas pelo jornal.
De acordo com a sentença, o hotel não estava apenas perto do comércio de drogas: funcionava como depósito e ponto de abastecimento das barracas que operavam na esquina das ruas dos Gusmões e dos Protestantes. Um dos episódios citados ocorreu no fim de 2023, quando uma mulher foi flagrada retirando drogas guardadas no prédio para levá-las aos pontos de venda, movimento que os investigadores chamaram de “travessia”. Os mesmos proprietários aparecem no quadro societário do Hotel Telaviv, na mesma rua, que já havia tido o perdimento decretado em outro processo.
O caso faz parte da Operação Salus et Dignitas, deflagrada pelo Gaeco em agosto de 2024 com mais de mil agentes para desmontar o chamado “ecossistema” de crimes ligado ao PCC no centro, que incluía tráfico, exploração sexual, receptação e comércio ilegal. Neste mesmo mês, a Justiça já havia mandado transferir ao Estado o prédio da Alameda Barão de Limeira usado para exploração sexual. Na decisão sobre o Impéria, o juízo destacou que o uso dos hotéis pelo crime gerou medo entre moradores e frequentadores, desvalorizou imóveis e contribuiu para a degradação do centro.
A Rua dos Protestantes foi o último endereço do fluxo da Cracolândia, esvaziado em maio do ano passado; a área em frente virou praça. Para quem trabalha e compra na Santa Ifigênia, a sequência de sentenças indica que o Estado tenta retomar imóveis que sustentavam o tráfico na vizinhança das lojas. A decisão é de primeira instância, e o destino que o governo dará ao prédio ainda não foi informado.
