O Boulevard São João, projeto de empresários do Centro que quer instalar quatro telões de LED gigantes nas fachadas do cruzamento das avenidas Ipiranga e São João, a poucos quarteirões da Santa Ifigênia, continua parado e sem previsão para sair do papel. A iniciativa, apelidada de "Times Square paulistana", está suspensa pela Justiça desde maio. Em 21 de setembro, a 7ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo negou, por unanimidade, o recurso da Prefeitura e manteve a paralisação, como informaram O Globo e ConJur. Neste domingo (18), uma reportagem da Exame detalhou o que o grupo promete entregar e o que ainda trava o plano.
Segundo a Exame, o investimento privado estimado é de R$ 50 milhões. Cerca de R$ 42 milhões iriam para a estrutura tecnológica, com painéis de 300 a 1.000 metros quadrados e projeções de vídeo em prédios da região, e outros R$ 8 milhões seriam destinados a restauro de patrimônio e melhorias urbanas. A liminar, reproduzida no acórdão do TJ-SP, cita os edifícios que receberiam as telas: Cine Paris República (Av. Ipiranga, 808), Herculano de Almeida (Av. Ipiranga, 890), New York (Av. Ipiranga, 855) e Galeria Sampa (Av. São João, 604), além de projeções mapeadas no Edifício Independência II. Pela proposta, 70% do tempo de exibição seria de conteúdo cultural, artístico e institucional, e 30% ficaria para marcas patrocinadoras. O grupo, que inclui os sócios da Fábrica de Bares, dona do Bar Brahma, também promete palcos, feiras gastronômicas e de artesanato e programação cultural nos fins de semana.
A parte das contrapartidas mira monumentos bem conhecidos de quem circula pelo Centro. O plano prevê recuperar as fachadas da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu, conservar a Estátua da Mãe Preta, obra de Júlio Guerra inaugurada em 1955, e devolver o funcionamento ao Relógio de Nichile, na Praça Antônio Prado, último de um conjunto de sete relógios públicos instalados nos anos 1930. Os trabalhos ficariam com o Instituto Sarasá, e o trecho da São João entre o Largo do Paissandu e a Praça Júlio Mesquita ganharia bancos, lixeiras e outros itens de mobiliário urbano, com três anos de manutenção previstos.
O freio veio de uma ação popular movida pelo ex-secretário Andrea Matarazzo, pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-SP) e por outros autores. Eles questionam se telões com publicidade são compatíveis com a Lei Cidade Limpa, em vigor desde 2007, e apontam que a Comissão de Proteção à Paisagem Urbana aprovou o projeto em ata publicada em 13 de março, antes do fim da consulta pública aberta pela própria Prefeitura, que ia até o dia 24. No acórdão, o relator Fausto Seabra viu "dúvida razoável" sobre o uso do termo de cooperação e sobre possíveis custos indiretos para o município, como a fiscalização do brilho e do conteúdo das telas, o reparo de fachadas ao fim do acordo e o risco de reequilíbrio dos contratos de publicidade já em vigor. A decisão é provisória e o mérito ainda será julgado. A Prefeitura defende a legalidade do modelo, e os empresários, em carta pública citada pela Exame, propuseram uma matriz de responsabilidades e o monitoramento da luminosidade dos painéis.
Para o comércio da Santa Ifigênia, o caso pesa por dois lados. O bairro é referência em iluminação, painéis de LED e eletrônicos, e o desfecho pode servir de referência sobre até onde vai o uso de telões com publicidade nas fachadas do Centro, assunto que interessa a quem vende e instala esse tipo de equipamento. Além disso, a promessa de atrair público à região nos fins de semana mexeria com o movimento no entorno, embora a própria reportagem ressalte que esse efeito na economia local ainda é só uma expectativa. A requalificação da Rua Santa Ifigênia, iniciada pela Prefeitura em 2024, já foi tema aqui no portal.